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Entrevista ao "Tio Zilo" criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
Escrito por José Pernicas da Silva   
Quarta, 12 de Julho de 2006
Tio Zilo olhando CarapeçosO Tio Zilo foi sempre uma pessoa de referência no âmbito popular desta freguesia, mas só aqueles que lerem os seus poemas ficarão a conhecer melhor a sua vocação pela poesia. Eu desconhecia a obra por ele escrita e publicada em livro no ano de 1998, numa edição a cargo da Junta de Freguesia. Para além das quadras que escreve, também tem uma vasta colecção de figuras fantasmagóricas, que foi fazendo com o seu canivete, a partir dos ramos de árvores e raízes. Bichos mágicos, desde cobras a pássaros e bengalas – são centenas de peças. Com a criação de sites na Internet, em que Carapeços está já equipado, inicialmente com o Carapeços Online (e recentemente com mais três), interessei-me em ir à descoberta das pessoas mais velhas e delas explorar todas as suas memórias, dando a conhecer aos mais novos os testemunhos vivos do passado. Encontrei no "Tio Zilo" um poeta genuíno, escrevendo toda a sua vida em verso. Tio ZiloQuando fui ao seu encontro, à procura de uma foto sua, para fazer as minhas publicações no site da freguesia, encontrei-o no café da Areeira (local por ele escolhido para passar as suas manhãs). Diz-se muito esquecido, mas não deixa de nos surpreender com os seus 86 anos. Da sua boca saem quadras e lamentos do mundo em que vivemos. Levou-me a sua casa, bem soalheira (na encosta do monte e lugar do mesmo nome), não muito distante da anterior, que foi recentemente demolida para dar lugar a uma nova no mesmo lugar. Eram 11:20h da manhã. Pouco depois de me mandar entrar no seu "estabiné" (palavras suas), puxou de mais umas folhas escritas, como ele diz, "à manada"e diz-me: "lê e vê se vale a pena". Diz ter muitas mais coisas guardadas, e diz-me repetidamente: "Eu tenho tempo para procurar, mas já não tenho paciência". Por momentos desviou o olhar e exclama para mim dizendo: "Gosto muito deste bichinho" (referia-se a uma blandisca) "Tem vindo cá todos dias. Dantes ainda andavam atrás dos arados, quando se lavravam as terras, á procura de comida. Agora tudo mudou e têm que procurar onde calha". Entretanto, tira do bolso meio papo seco e esfarela-o no caminho (pouco utilizado) em frente a sua janela e assim viu, com satisfação, uma das suas companhia diárias enchendo o papo.



Nome: José da Costa

Natural: Carapeços
Residente: Carapeços – Barcelos
Profissão: Reformado  
Data de nascimento: 13-09-1920
Habilitações: 4ª Classe

Porque são poucas as pessoas com a sua idade na freguesia e, sabendo nós, tratar-se de uma figura popular, de grande sabedoria e imaginário, o Carapeços Online não podia perder esta oportunidade para lhe fazer esta grande entrevista.

Carapecos Oline - Tio Zilo, onde nasceu? Quem eram os seus pais e quantos irmãos eram?

Tio Zilo Tio Zilo – Eu nasci no lugar da Areeira, na casa que é hoje do Sobreiro. Ali mesmo ao lado do "café do Gusto". Ali cresci e morei durante bastante tempo, mas depois tivemos que sair porque a casa foi licitada pelo tribunal e viemos morar para aqui, para o lugar do Monte, propriedade que era da minha avó Josefa da Costa, que na partilha, à morte desta, passou a pertencer ao Costa e Silva (em troca das muitas dívidas deixadas pela proprietária, a maior parte das quais em comestíveis, na casa de comércio que ele tinha em Barcelos), de quem a minha mãe "Carmentina da Costa" era irmã. Mais tarde deu isto ao meu irmão Domingos. Havia mais uma irmã, chamada Carolina (essa morou em Pereira, foi para lá servir e para lá ficou). Eu era filho de pai incógnito.

C.O. - Quer dizer que você era o único filho de pai incógnito?

T.Z. - Não! Eles também eram! Naquele tempo usava-se!(risos). Ao todo era-mos 5 irmãos, o Luís, o Domingos, a Alzira, a Maria e eu.

C.O – Sei que tem a 4ª classe, onde foi a sua escola e quem era o seu professor?

T.Z – A minha Escola foi na sede que existia ao lado da Igreja, onde se encontra hoje a Capela Mortuária (por cima). Foram três os meus professores. Eu até aprendia bem, mas por falta de dinheiro para comprar o livro da 4ª classe, a minha mãe tirou-me da escola. Fiz a 4º classe na tropa.

C.O. – Com quantos anos começou a trabalhar e a ganhar dinheiro?

T.Z. – Eu comecei a trabalhar com 8 anos, com o meu irmão Luís, na construção. Mas naquele tempo era preciso levar um sachola e trabalhar de graça durante alguns anos. Só depois de uma pessoa se "desimerdar" passava a ganhar 2 ou 3 tostões por dia. Isso só aconteceu quando eu tinha 12 anos. Um artista ganhava 25 tostões. Comecei por fazer a massa e acarretá-la à cabeça. Lembro-me que naquele tempo as jornaleiras iam trabalhar daqui para o Faial por 25 tostões. Os lavradores ainda vendiam um pouco de vinho e um pouco de milho. Era pouco para eles comerem. Passavam-se misérias.

C.O. – Disse-me que levava a massa à cabeça! Numa gamela?

T.Z. – Nesse tempo nem gamelas haviam. Era uma tábua. Por vezes a massa era mole, caía por mim abaixo e deixava-me todo "borrado".

Tio Zilo no local onde guarda as suas C.O. – Frequentou a catequese? Quem era o padre nessa altura?

T.Z – Sim, frequentei a catequese. Na altura com o Padre Miranda. Foi ele que me ensinou a doutrina. E levei umas boas caneladas pela cabeça abaixo, aquele c****** até sabia bater bem. Mas até com alguma razão, porque eu, às vezes também era macaco.

C.O. – O padre dava bolas para vocês jogarem?

T.Z. – Não!!! Qual bola, qual carapuça. Nós chegava-mos a fazer bolas de farrapos, com uma meia. Entretinhamo-nos mais ali no adro, a jogar à cabra cega e ao jogo da Barra. Sei que nesse jogo se fazia um risco no chão, mas não me lembro bem. Caraças! O tempo passa e não me lembro.

C.O. - Nessa altura nos baptizados já havia confeitos?

T.Z. – Sim. Quando chovia até do meio da lama os apanhava-mos. A fome era tanta rapaz!

C.O. – Conte-nos lá, como era para repicar o sino nos baptizados?

T.Z. – O Padre tinha a mania de deixar a chave debaixo da porta (havia um buraco) para irem tocar o sino para a missa pela manhã. Nos baptizados iam lá e rapavam-lhe a chave. Quando um gajo se preparava para ir repicar, já estava lá um c****** na torre, com a porta fechada. Depois, eu fazia na mesma.

C.O. – Em troca de repicar o sino, o que recebiam dos familiares do baptizado?

T.Z. – Davam um trigo ou dois, consoante as pessoas. Se fossem mais ricos davam dois, se fossem mais pobres davam só um.

C.O. – E os círios?

T.Z. -Tinha-mos que andar "a pau" para sermos os primeiros a chegar, senão, quando chegava-mos, já estavam nas mãos de outros. Era o c******!

C.O. – Disse-me há dias que remiu o confesso. Porquê?

T.Z. – Eles (os Padres) queriam saber quantas um homem aguçava. Se eram viúvas, se eram novas, se eram velhas... Eu comecei a magicar naquilo. Havia as confessadas e lembro-me que me confessava ao Padre Fonseca, que era da ordem do Seminário da Silva. Ele era um pouco amacacado, mas eu também já ia um bocado f*****. Ele ainda me queria dar benção. Dizia-me para me ajoelhar. Mas eu disse-lhe: "Estou confessado para uns anos". E remi.

C.O. - Era crente do padre Alberto Barbosa? Diga-me porquê.

T.Z. – Sim. Eu era e sou, porque ele, no tempo da fome, repartia com os pobres. Lembro-me que foi ele quem criou os filhos da Né, o Pepe e o Aurélio. Outra ocasião, aqui o Tio Mota, que morava ali abaixo, teve uma doença muito grave com a tuberculose e foi ele que o tratou. Muita gente se apegou a ele. Agora não sei, que não tenho lá ido, mas antes, no cemitério, tinha sempre uma lamparina acesa na sua campa. Eu um dia prometi um litro de azeite, mas aconselharam-me a dar a esmola em cera, porque já tinham tirado de lá a lamparina. Ele ajudou muito os pobres naquele tempo e acreditei que estaria santo. Um dia vi-me aflito e pedi-lhe para ele me dar um jeito à vida. Foi o que aconteceu. Acabei por receber a graça pedida.
 


I

No dia vinte e três de Julho,

Fiz a minha petição.

Deste-me saúde e vida,

Na hora de aflição.

II

Venho-te agradecer,

Tiveste de  mim piedade.

Por isso ó Padre Alberto,

Creio na tua santidade.


III

Venho cumprir a minha promessa,

Que foi o que prometi.

Que sirva de oração,

E fique junto de ti.

IV

Não te esqueças de mim,

Ó bendito Padre Alberto.

Neste mundo traiçoeiro,

Estejas de mim sempre perto


V

Quando recorri a vós,

Padre Alberto agradeço.

Que estais santo acredito,

Disso nunca mais esqueço.

VI

Neste cemitério de Carapeços,

Deixo esta inquirição.

Pede por nós a Jesus,

Que nos dê a salvação.

VII

Ao entrar no cemitério,

Lembrai-vos do Padre Alberto,

Quando vos vires perdidos,

Neste mundo que é um deserto.


VIII

Encontra-se neste cemitério

O Padre Alberto Barbosa.

Abandonou a riqueza,

E pôs a pobreza mimosa


 

C.O. - Falou-me que as pessoas que iam moer, por vezes eram assaltadas. Diga-me lá porquê.

T.Z. – Naquele tempo só tocava uma m**** a cada pobre. Os lavradores ficavam com algum milho escondido, porque até os lavradores eram racionados. Não podiam comer o que queriam. Era um quarto de quilo ou meio quilo por pessoa. Agora não me recorda bem. Até os taberneiros racionavam. Davam conforme o número de pessoas que faziam parte da família. Quando se via um lavrador a ir com uma saca de milho para o celeiro, saía-se-lhe ao caminho e ele tinha que repartir pelos pobres.

C.O. - Dê-nos uma ideia de como era o Monte de Carapeços no seu tempo de rapaz.

T.Z. – O Monte não tinha nenhumas árvores, era só mato e erva. Quando eu não tinha serviço nas obras, ia com as ovelhas para o monte. A minha mãe criava ovelhas para, de vez em quando, vender uma para fazer dinheiro. Mesmo assim, nós tínhamos que andar "a pau" com a escrita, porque havia lavradores que não queriam que andássemos nas bouças deles. E quando nos viam, tínhamos de fugir com as ovelhas para outro lado. Era vida muito dura naquele tempo rapaz!

C.O – O monte de Carapeços e de S.ª Leocádia nestes últimos anos está constantemente a arder. Diga-me se será só mão criminosa ou será que o calor deste tempo é mais que no passado?

Fora de sua casaT.Z. – O monte arde porque o fogo é pegado. Eu uma vez estive a experimentar com um vidro virado para o sol e uma ruminha de erva seca. Incendiou o c******! Por isso, para mim, isso é "lero lero"! Não acredito! Há alguém que chega lá um "tiçãozinho"! Eu até já ouvi dizer e acredito. Os gajos põem uma velita a arder num pouco de erva seca. Mas, se calhar, agora já devem fazer de outra maneira. Levam uma garrafa de gasolina no bolso, estendem-na e pegam-lhe o fogo. Quando chegam os bombeiros já ardeu tudo.

C.O. – Anda por aí uma fotografia publicada num livro em que o vêmos em cima do moinho de vento. Eram dois os que lhe faziam companhia na mesma foto. Quem eram e o que faziam em cima do moinho?

T.Z. – Ora bem, quem estava comigo eram o Chico Gramosa e o Marmanjo da Quinta. Já morreram ambos. Eu tenho para aí mais fotografias! Nós em cima do penedo da risca. O Chico é que levava a máquina. Nesse dia levamos uma merenda. Uns pagavam e os outros cozinhavam. Levávamos uns bolinhos de bacalhau.

C.O. - E levavam vinho também?

T.Z. – É claro! Nós íamos preparados. Os que pagavam iam mais livres. Os que não pagavam iam mais carregados com o merendeiro. No fim nós apanhava-mos uma cabrita do caraças (risos).

C.O. – Era ao Domingo?
T.Z. – Não. Era quando nos lembrássemos. Era qualquer dia.

C.O. – Para além desse moinho, havia mais algum? Moíam farinha presumo eu. Como faziam chegar as fornadas ao alto?

T.Z. – Havia três. Mas que me lembre, só vi dois a moer. Um grande e um pequeno. O outro só restavam os alicerces. A minha mãe em casa mandava-me olhar para o monte, para ver se tinha um pano içado num pau junto ao moinho. Se tivesse o pano, era sinal que estava livre e, então, era a altura de ir com as fornadas ás costas. Lembro-me que o último dono dos moinhos foi o Valério. Ele, pouco depois, comprou o Moinho que é hoje propriedade da Junta. Situava-se entre o moinho do Pedrogo e a Azenha dos Crespos. Para ali moer, comprou um jerico, para ir buscar as fornadas a casa das pessoas. Do moinho de vento, nem o "raio" das pedras dos alicerces escaparam! Agora nada existe no local.

C.O. – No seu tempo de namoro, refere-se a duas raparigas daquele tempo. Mas esse namoro não deu certo. Porquê? E porque não procurou outras para casar, já que namorou sempre?

T.Z. – Fiquei desorientado, como diz o outro. Depois comecei arranjar viúvas. E eram jeitosas para os aguços.

C.O. – Nunca pensou em casar?

T.Z. – Não. Desde que comecei a ficar desorientado nunca mais pensei em casar. Fiquei por conta da Laura, como diz o outro. Eu ainda disse uma vez ao padre que tinha quatro raparigas e ele disse-me que assim não me podia absolver dos pecados. Mas eu disse-lhe: "Não faz mal!". Eu não ia ali pedir esmolas. Afinal se eu casasse com uma, as outras ficavam a chorar. E ainda disse ao padre que ia arranjar outra. Ele disse-me: "Ainda cismas em arranjar outra?". Até as orelhas lhe arrebitavam, como diz o outro.

C.O. – Tem filhos?

T.Z – Só tenho dois perfilhados. Mas, de resto, foi tudo à cão. Sabes o que significa a cão? (risos)

C.O. – Como se chamam?

T.Z. – Um é o Amadeu que está em França. O outro, verdadeiramente, até nem sei o nome dele. Não sei se é Francisco. Ele está lá para o Canadá.

C.O. - Você sabe que tem quatro filhos pelo menos?

T.Z – Quatro eram só numa! Depois era mais o Amadeu e uma Petrica. Para aí uns seis ao todo!

C.O. - Era complicado nessa altura evitá-los?

T.Z. – A única forma era desencaixar. Mas se calhar ás vezes já era tarde e o azeite já tinha encandeado a luz. (risos)

C.O – Já esteve na Venezuela e em Cuba. O que mais gostou de ver?

T.Z. – Bem, em Cuba foi só de passagem, assim como passei em Miami (E.U.A.). Como íamos de barco, quer saísse-mos do barco ou não, tínhamos que nos apresentar na sala do comissário dos governantes da América. Eu pensei que só seria preciso apresentar-se quem tivesse que sair do barco, mas eu como estava um bocado doente não fazia caso, mas como o altifalante continuava a paurrar, lá fui também. Como estava meio doente disse cá para mim: "Deixa-me c**** para eles". Lá fui eu por uma avenida abaixo. Fui para trás duns arbustos para não me verem com o c* arreganhado. Puxei quanto pude! Mas agora posso dizer: "C***** para os Americanos."

C.O. - Já na Venezuela, não gostou de ver capotes?

As recordaçõesT.Z. – É verdade, os caixões eram pretos! Feios. Passava lá um todos os dias com capotes. Nos funerais, os mortos só iam acompanhados se alguém levasse cachaça, senão ia uma carroça só com ele dentro. E depois era assim: "Vai pró senhor". E bebiam um golo. Era como aqui antigamente. Também levavam um ramo para rezar um padre-nosso no adro da Igreja! (Agora não há nada disso, se bem que eu ultimamente não tenha ido aqui aos funerais). Lá, como disse, era a moda da cachaça. Vai pró senhor! Um golinho. Vai pró senhor! Outro golinho.

C.O. - Trabalhou um ano na Venezuela. Teve que vir embora por causa da saúde?

T.Z. – Trabalhei lá nas obras. Depois comecei arruinar-me e tive que me vir embora. Eu estive sujeito a uma tuberculose intestinal. Já tinha tido colite antes de ir e lá foi-se agravando. Já no barco de regresso a Portugal, os médicos disseram-me: "Eles não estavam a tratá-lo. Estavam a matá-lo." Parece que aquilo era derivado do fígado e não me estavam a tratar do fígado, mas sim dos intestinos! Se não viesse embora, estava sujeito a deixar lá a pele.

C.O. -Viu lá coisas bonitas?

T.Z. – Gostei de apreciar certas coisas. Uma delas foi visitar os cemitérios. Lá crescia erva até ao c******! Como era um país quente e pelos Santos sachavam aquilo tudo... Não tinham jazigos como aqui! Só punham o molde na campa. Um dia perguntei: "Mira, que significa cavar as campas?". Responderam-me: "Para que a terra se lhe torne mais leve!". "Ai bom!" – Respondi eu, admirado. Também gostei de ver a Páscoa. A bênção dos ramos é como aqui, mas não andam a dar a cruz a beijar. Lá, todo o Venezuelano, pobrezito, com umas sapatilhas nos pés, ia à Igreja buscar água benzida. Nesse dia de Páscoa estava um padre e mudava de hora em hora, porque aquilo também cansava. Tinham lá uma grande pia em frente ao altar e depois com uma colher, como quem tira caldo, a encher os frasquinhos. Eu perguntei: "Mira para que é isso?". Respondeu: "Temos que ter água Santa em casa." Não sei se era por ser terra do diabo ou se foi coisa que lhe meteram na cabeça.

C.O. – Também disse que Cristo pregou aos seus discípulos mas que eles eram moucos. Porque diz isso?

T.Z. – Cristo disse: "Amai-vos Uns aos Outros". Mas eles, com aqueles cabelos grandes, ouviam mal e, com uma mão nos ouvidos, perguntavam: "O que é que o Cristo disse? O que é que Cristo disse?" Amai-vos uns aos outros como eu vos amei, mas eles como interpretaram mal e já eram macacos naquele tempo disseram: "Ele disse f***&#** uns aos outros. É por isso que o mundo anda f*****.

C.O.- Diz-me que meio mundo já é do diabo, mas que mesmo assim não se contenta. O que pensa então que vai acontecer?

T.Z. – O Cristo já começa a estar cansado. E tem razão! À tantos anos a trabalhar e agora vê o mundo todo f*****, com o povo a transformar isto. Deu-lhes inteligência até para eles se matarem. Um dia o povo vai estudar aí uma ratoeira. Quando se contornar vai estourar aí uma bomba e acaba com a humanidade.

C.O. – Disse-me que tem um livro em que fala do seu tempo de guerra. Onde teve a sua carreira militar?

T.Z. - Foi em 1942-1943 em Lisboa – Caçadores 5. Andei lá 28 meses! Eu apanhei três ou quatro incorporações. Lembro-me que houve uma altura em que fui a Alcântara para levantar o azeite com uma senha. Entretanto dei com uma mulher a chorar que disse que tinha lá passado a noite e, mesmo assim, não teve senha. Então eu tive pena da mulher e dei-lhe a minha senha e assim a mulher pôde levantar o azeite e levar para casa.

C.O. - Falou-me de mobilizar mulas e cavalos para ficar de prevenção para a guerra, pois naquele tempo nem carros haviam.

T.Z. – Nós fomos num comboio fretado pelo Exército (lembro que nessa altura da guerra até os camionistas particulares eram obrigados pela tropa a parar e serem mobilizados também) para ir a Beja carregar os cavalos e vínhamos para a Régua. No meio deles, levávamos as mulas até Lamego a pé, para entregar no Quartel.

C.O.- E comer? Como era na altura? Era conserva?

T.Z. – Não. Os comandantes, de vez em quando, chamavam-nos e davam-nos o pré. Eu não me lembro quanto era, mas dava para comer. E mesmo assim a comida estava racionada. As tascas não davam tudo o que nós queríamos. Já em Lamego, ao olhar para aquelas tascas, víamos em algumas delas uma cabeça de porco pendurada na porta de entrada. Era sinal que dentro havia sarrabulho. Entrámos e começamos a comer. De repente, apareceu um soldado a dar a ordem que o comboio estava para arrancar. Eu disse: "Agora tanto vou para Lisboa (Caçadores 5), como vou para o Minho". Nós estávamos cheios de fome e eu disse: "Agora temos que comer." E assim foi.

C.O – Os cavalos e mulas eram dos particulares. O estado chegava ali e levava tudo o que queria sem pagar?

T.Z. – Era assim mesmo! Ainda deixavam uma mula para cada dono. Se tivesse muitas deixava mais que uma, de resto ia tudo. Lembro-me que até as mulas do Sr. Guilherme de Faria, de Carapeços, estiveram para ir (tinha duas). Mas ele andou "a pau" e safou-se nessa altura.

C.O – Está revoltado com este mundo actual? Como gostaria de ver Portugal a ser governado? Sem ministros?

T.Z. - Sabe o que eu escrevi? Parece que não está nos livros que eu escrevi. Isso está para aí a molhos.

        Prometi um forcado ao diabo de S. Bento
        Para meter governantes, ministros e deputados pelo inferno dentro.

Lendo o jornalEles todos dentro dum braseiro, era a maneira de acabar com a ambição do dinheiro. Eles vão para o poleiro por causa do dinheiro. Não é para trabalhar! O trabalho que se f***!

C.O. – Hoje vê a sua terra mais moderna, com bons caminhos, boas escolas, boas casas, mas perdeu as natureza dos ninhos, dos melros, dos pitassilgos, dos ribeiros, das uveiras, cerejeiras, que se estendiam por esses baldados até perder de vista. Tem saudades desse tempo? Ou vê o mundo a caminhar para o seu fim?

T.Z – É verdade que tenho saudades desse tempo. Agora nem sequer ouço por aqui o cuco a cantar. O cuco por estas alturas já andava por aí a cantar. Já o ano passado o ouvi poucas vezes. Este ano ainda não ouvi vez nenhuma. Os pássaros tem desistido! São cada vez menos. Os melros ainda os vejo ali na Quinta da Coutada. De manhã, quando vou ao café levo um pouco de miolo. Há lá um sitio em que eles estão à minha espera. Eu solto-lhes ali o miolo e mais abaixo olho para trás! E já estão lá todos a limpá-lo. Estou a ver se tenho mão neles! Blandisquinhas também ando a manter aqui uma, a ver se ela não vai, porque é linda. A minha mãe dizia que as blandisquinhas eram bichinhos abençoados e as formiguinhas pretas eram do Senhor. Por isso ela dizia para não as matar. Cada vez se vê menos destes bichinhos. É como as cobras! Eu que moro à beira do monte, dantes via muitas. Agora não sei se é das águas do monte estarem quase todas encanadas, poucas se vê. Dizem que as cobras bebem muita água e poderá ser disso. Às vezes, na Quinta da Coutada ainda aparece uma espalmada. Elas, de noite, lá andam a passear e lá vem um automobilista e passa-as a ferro. Elas comem coelhos! Eu também não acreditava, mas uma ocasião vi no monte. Quando houve um fogo grande, nós fomos ver o fogo e ao ir pelo monte fora ouvimos um coelho a chiar ali por detrás da "Fialão". Fomos ver. Lá estava uma, toda enroscada num e a mamar debaixo de uma mão (dizem que primeiro mamam o sangue e depois mamam o resto). Eu e o Tomé dos Tomeses queríamos matar a cobra, mas não queríamos matar o coelho. Então eu tive uma ideia. Fui por cima duma pedreira e deixei cair um pedra. A cobra desensarilhou-se do coelho (estava todo f*****!). O Tomé, com um bastão, matou-a e fomos metê-la no meio do fogo. Derreteu de tal forma que só ficou a espinha. Nós ainda chegamos a pensar que tinha fugido, já que não víamos nada!



 

Nota final

O Carapeços Online agradece desde já a disponibilidade do Sr. José Costa – "TIO ZILO" em dar-nos esta grande entrevista. Muitas mais curiosidades ficam por contar. No entanto, ainda damos a conhecer mais algumas, tais como:


  • O tempo em que a doença das bexigas bravas matavam pessoas.

Em 1928, era eu rapaz pequeno, houve aí uma doença tremenda. Chamavam-lhe a doença das bexigas bravas e matou muita gente. A minha mãe até fez uma promessa para que essa doença não desse aos filhos dela e safámo-nos. A gente esfolava toda. Lembro que o falecido Luisana também a teve, mas escapou. Mas ficou com marcas na cara.


Livros_e_actores_de_Carape__231_os_021.jpgE havia um homem chamado Lobo, que gostava de pregar partidas, que também teve essa doença e ficou sarapintado na cara. Um dia, a conversar com um tal Pifano (pai destes que vós conheceis), disse-lhe: "Sabes Zé! Eu esfolei todo! Até a grila esfolou Ainda tenho em casa o casulinho direitinho!". "Só vendo é que acredito" – respondeu o Pifano! "Anda lá a casa" – disse o Lobo. E foi mesmo! Chegado a casa, tinha um cancelito à porta (viviam onde vivem hoje as chouriças), o Lobo chama: "Ó Maria anda cá e mostra o casulinho da minha gaita que ele quer ver isso!" "Ó seu c******, havia de mostrar mesmo. Ó homem, você ainda acredita nele! Ele só anda com essas brincadeiras sujas!"

Descubram os leitores qual era casulo a que o Lobo se referia. (risos)

 

  • Outra ocasião o mesmo Lobo andava a vindimar como os outros na Quinta da Pia (naquele tempo as pessoas iam vindimar apenas para encher a mula) e ás tantas dá a berrar em cima da escada. O povo vai todo para junto dele porque pensava que ele ia cair. Qual não é o espanto quando ele começa a falar: "Vou morrer! Vou entregar a alminha a Deus e o corpo à terra fria. Vou deixar os c****** para o padre (que não eram bons de partilhar) e a gaita à freguesia, que cortada ás rodelas ainda vos toca uma rodelinha." O povo ainda o tratou mal. Não gostaram da brincadeira. Vinham para o acudir e ele sai-se com aquela macaquice.

  • Nasceu a 13 de Setembro mas só foi registado a 19 do mesmo mês, para não ter que pagar multa, daí, conste essa data no seu B.I.

  • Chama baraças ou guitas aos agentes da autoridade. Segundo ele, prendem as pessoas, daí esse nome!

  • Das muitas velharias que tem guardadas, tem uma cama que comprou ao Costa e Silva por 500 escudos na década de 1960, toda ela em castanho, mandada fazer de encomenda para o seu casamento.

  • Lembra que as pessoas gostavam muito do Costa e Silva porque servia bem no seu estabelecimento. A medir o azeite era sempre a transbordar, mas poucos sabiam que no fundo da medida tinha uma cortiça! (risos)

  • Guarda consigo uma carta de resposta a uma que escreveu em 1968 a Salazar, o Chefe da Nação, sobre um pedido por si feito para ir trabalhar para Angola, mas que não foi aceite, porque a única forma de ir era na condição de colono.

  • Uma das malasTem várias malas com dezenas de agendas de bolso guardadas, cheias de quadras suas e dezenas de cadernos, onde para além das quadras encontrámos também os seus pensamentos. Impressionante!

  • Dentro de malas velhas ainda guarda a sua ferramenta (hoje inexistente), que pela sua aparência aponta para os anos 40.


Ficamos-lhe grato pela sua a sua amabilidade em fazer um grande esforço de memória para nos relatar tudo o que aqui foi escrito. São 80 anos de memórias. Era-nos de todo impossível descrever todas. Estamos, sem dúvida, perante um património que infelizmente vai desaparecendo. Ficam (graças a ele) as suas recordações escritas para quando não houver mais ninguém para as contar. Da nossa parte desejámos-lhe muita saúde e muitos anos de vida felizes.
Um bem-haja.

    Raízes esculpidas pelo Tio ZiloEncontra-se na freguesia de Carapeços um coleccionador de bengalas, criadas pela natureza e que faz parte de recordar os velhos tempos com que vinham de toda a parte mendigos bater ás portas dos lavradores da minha freguesia, pois era uma freguesia de colher bastante pão.



    A água quando tem peso
    Sobe andares e desce,
    É como o governo no poder,
    Que faz o que lhe apetece
    .


    Fotos antigas Pode ver Aqui...

    Para ver  a basta obra deste grande poeta Carapecense.
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