I Comboio que estás no rossio, Prontinho para partir. Espera mais um bocado, Que eu para lá quero ir.
II Comboio que estás parado, Está a chegar a tua partida. Até que chegou o dia, Que eu vou ver a rapariga.
III Desde que deres partida, Não pares em nenhuma estação. Quero ir ver a minha aldeia, Aldeia do coração.
IV Onde tenho minha mãe, Que a quero abraçar. Onde tenho minha rapariga, Que um beijo lhe quero dar.
V Onde tenho meus irmãos, Que com eles bem me dou. Até que chegou o dia, Que para minha terra vou.
VI Onde tenho meus amigos, Que me estão anunciar. Contam –me as novas de lá, Para eu aqui espalhar.
VII Comboio por aí acima, Eu quero te ver fugir. Quero ver o meu amor, Vou-me com ele divertir.
VIII Viagem que és tão longa, Que tanto custa a passar. Adormeci e acordei, E o comboio sempre a andar.
XVII Logo que saí do comboio, Encarei com meus amigos. O tempo que eu cá esteve, Já os julgava perdidos.
XVIII Eram amigos leais, Não os podia esquecer, Tenho-os por maiores colegas, Até à hora de morrer.
XIX Todo o tempo de tropa me escreveram, Sem lucro nenhum tirar. Tenho um que ainda lhe pago, Outro não posso pagar.
XX Dirigi-me então para casa, Minha mãe fui abraçar, E meus irmãos estranharam, Em eu em casa entrar.
| IX Não estranheis meus irmãos, Porque não è de estranhar. È sinal que findei, A Vida de militar.
X Dei-a por findada, E parti para a minha terra. Serei um dia chamado, Se por acaso houver guerra.
XI No Domingo fui á missa, Toda a gente me estranhava. Quem seria aquele, Que na missa se encontrava.
XII Toda a gente olhava para mim, Era um rapaz estranho. Pois eu fui sempre o mesmo, Tive sempre o mesmo tamanho.
XIII Quinze meses estive fora, Com certeza no Brasil. Adegas em volta de mim, Tinha então mais de mil.
XIV Eram todos meus colegas, Que a mão me apertavam. Pareciam-me maiores, De que quando comigo andavam.
XV Dá o mundo muita volta, Eu não me admirava. Em quinze meses, O tempo modificava.
XVI Aqui estou meus amigos, O meu tempo liquidei. E todo o tempo foi dado, Que dinheiro não ganhei.
XXI Algum dinheiro me deram, Mas para nada dava. Ainda à minha custa, A minha roupa lavava.
XXII Para graxa e súlirina, E um bocado de sabão. E lá ia o pré todo, Não me ficava um tostão.
XXIII Já não compro súlirina, Nem tão pouco sabão. Quero mais è ir para a terra, E deixar o batalhão.
XXIV Eu na terra não lavo, Não preciso de lavar. Nem tão pouco gasto graxa, Para as botas engraxar.
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