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TESTAMENTO AOS RANCHEIROS EM 25-09-1942 criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
Escrito por José Pernicas da Silva   
Sexta, 28 de Julho de 2006
                   I
Vou-vos juntar meus rancheiros,
Mas isto dentro de uma hora.
Quero fazer testamento,
Que amanhã vou-me embora.
 

                    II
Quando vos pedia um prato de manga,
Vós não me querias dar,
Mas agora a manga,
Para mim vai-se acabar.
 

                    III
Julgavas que davas o que era vosso,
E afinal era do estado,
Vós querias o poupar,
Tiravas bom resultado.
 

                   IV
Se a manga não chega-se,
Eles que manda-se fazer mais,
Nós éramos todos soldados,
Nós éramos todos iguais.
 

                   V
Mas vós como tinhas à farta,
Não vos lembravas de nada,
Vós com a barriga cheia,
E nós com as calças na manada.
 

                 VI
Nós andava-mos a fazer guarda,
E vós na cozinha parados,
Com a barriga cheia de manga,
E nós bem esfomeados.
 

                VII
E o que me fiz fazer testamento,
E deixar-vos o que tenho,
Toda a água desses rios,
Para tanger um engenho.
 

                VIII
Agora mesmo começo,
Tenho muito que vos deixar,
Deixo-vos a cidade de Lisboa,
Para nela passear.
 

 
               XVII
Deixo-vos esses automóveis,
Para vós andares a pé,
Para não gastares dinheiro,
Que senão não chega o pré.
 

             XVIII
Deixo-vos os carros eléctricos,            
Que andam pela cidade,
Para vós olhares para eles,
Mas olhares á vontade.
 

             XIX
Deixo-vos os comboios,
Para vós os deixares andar,
Porque è muito peso,
Não os podeis atracar.
 

              XX
Deixo-vos essas grandes sapatarias,
Que tem finos sapatos,
Que tudo o que há em Lisboa,
Hei-de vos deixar a vós fartos.
 
            XXI
Deixo tudo o que à na terra,
Ainda parte do céu,
Deixo-vos essas chapelarias,
Para comprares um chapéu.
 
            XXII
Mas è se tiveres dinheiro,
Para o chapéu comprar,
Não è chegar à chapelaria,
E logo o chapéu pegar.
 

           XXIII
Deixo-vos tudo à fartura,
Não faço com vós fazias,
Não me davas manga,
Mas vós à fartura comias.
 

          XXIV
Isto è só para amigos,
Isto não era de fazer,
Deixar-vos uma fortuna,
Sem vós a mim nada ser.
 

 

             XXXIII
Deixo-vos água á fartura,
Para na sopa botar,
Para não a dares salgada,
Para a sopa temperar.
 

            XXXIV
Deixo-vos esses talhos,
Para de lá carne trazer,
Para na sopa botar
E ao fim para vós comer.
 

            XXXV
Os ossos ficam para nós,
Porque esses são muito duros,
Mas deixo-vos-los no testamento.
Que vos ficam bem seguros.
 

             XXXVI
È o que vos deixo com mais gosto,
Deixo-vos-los bem seguros,
Para pores de madoreiro,
Até se porem maduros.
 

            XXXVII
As couves que vinham duras,
Também vo-las posso deixar,
Para vós as comeres,
Para isso tendes vagar.
 

          XXXVIII
O banacau esse,
Não se pode falar,
Comias o pó todo,
Só água querias dar.
        
          XXXIX
Um bocado de mijeira de burro,
Isto assim não está mau,
Davas só a água,
Comias o banacau.
 

          XL
Está tudo muito fraco,
Mas  eu não me admirava,
Cozinheiros feitos à pressa,
Era o que mais se encontrava.
 

                IX
Para ser a nossa capital,
Uma cidade muito rica,
Deixo-vos o campo de aviação,
Que é o campo de Benfica.
 

               X
Deixo-vos todos os jardins,
Para neles recriares,
Mas se tiveres dinheiro,
Para vos poder sentares.
            
              XI
Deixo-vos essas pequenas tascas,
E esses grandes hotéis,
E para limpares o rabo,
Um bô rancho de papeis.
          
              XII
Deixo-vos esses cinemas,
E todos esses teatros,
Mas se não tiveres dinheiro,
Eu ponho-vos-los mais baratos.
          
               XIII
Deixo-vos a avenida da liberdade,
Para nela passeares,
Deixo-vos bons cafés,
Para se tiveres dinheiro comprares.
         
                XIV
Também vos quero deixar,
O rico terreiro do paço,
Para ires para lá com a mala,
E a toalha no braço.
            
               XV
Que è para ganhares dinheiro,
Para poderes passear,
Que senão vale nada,
O que vos estou a deixar.
 

              XVI
Deixo-vos todos os navios,
Para vós olhares para eles,
Que enquanto estais em Lisboa,
É o que mais aqui vedes.
 

 

             XXV
Não tenho nenhuns parentes,
Não tenho a quem deixar,
Deixo-vos a vós,
Por manga não me quereres dar.
 

           XXVI
Para não vos fazer roubo,
Faço –vos então testamento,
Para vós tudo herdares,
E não passares tormento.
 

          XXVII
Também vos quero deixar,
Os armazéns de fazenda,
Deixo-vos o mais alto armazém ,
Até mais baixar a tenda.
 

          XXVIII
Para escolheres à vontade,
Lá o a vós vos parecer,
E as portas bem abertas,
Para os fatos vos dentro ver.
 

           XXIX
Mas senão tiveres dinheiro,
Só vos fica a olhar,
Só se ninguém vos ver,
E vós poderes roubar.
 

           XXX
Deixo-vos os grandes hotéis,
Para comeres e beber,
Dinheiro não tendes,
Mas ficai-o a dever.
 

            XXXI
Eu de vós tudo confio,
Eu de vós tudo fiei,
Não faço como vós fazias,
Nesse tempo que eu sei.
 

           XXXII
Agora deixo-vos ricos,
Tendes bem que gastar,
Não faço como vós fazias,
Manga não me querias dar.
 

 

              XLI
Na terá eram borra-botas,
Uns completos sapateiros,
Para cozinhar para a tropa,
Isto já são cozinheiros.
 

              XLII
Creio que já não tenho,
Mais nada que vos deixar,
Mas se quereis mais alguma coisa,
Vinde para mim falar.
 

             XLIII
Deixo-vos papel selado,
Um bocado de tinta bê,
Na terá não tendes que comer,
E para vós meter o é.
 

             XLIV
Não tendes que vos queixar,
Deixo-vos a cidade em peso,
Deixo-vos para o vosso c,,
Este c,,,lho bem teso.
 

             XLV
Peço-vos agora desculpa,
Também vos peço perdão,
Agora como vou embora,
Deixo-vos o salpicão.
 

            XLVI
O casqueiro que me tocava,
Que eu deixava pôr duro,
 Mas ainda vo-lo deixo,
Um bocado mal seguro.
 

            XLVII
E agora está findado,
O meu rico testamento,
Foi bhoje mesmo,
Que esteve seu findamento.
 

           XLVIII
Não è por vos querer mal,
Que vos fiz a escritura,
Mas assim no testamento,
Fica-vos muito mais segura.
 

 
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