I Vou-vos juntar meus rancheiros, Mas isto dentro de uma hora. Quero fazer testamento, Que amanhã vou-me embora.
II Quando vos pedia um prato de manga, Vós não me querias dar, Mas agora a manga, Para mim vai-se acabar.
III Julgavas que davas o que era vosso, E afinal era do estado, Vós querias o poupar, Tiravas bom resultado.
IV Se a manga não chega-se, Eles que manda-se fazer mais, Nós éramos todos soldados, Nós éramos todos iguais.
V Mas vós como tinhas à farta, Não vos lembravas de nada, Vós com a barriga cheia, E nós com as calças na manada.
VI Nós andava-mos a fazer guarda, E vós na cozinha parados, Com a barriga cheia de manga, E nós bem esfomeados.
VII E o que me fiz fazer testamento, E deixar-vos o que tenho, Toda a água desses rios, Para tanger um engenho.
VIII Agora mesmo começo, Tenho muito que vos deixar, Deixo-vos a cidade de Lisboa, Para nela passear.
XVII Deixo-vos esses automóveis, Para vós andares a pé, Para não gastares dinheiro, Que senão não chega o pré.
XVIII Deixo-vos os carros eléctricos, Que andam pela cidade, Para vós olhares para eles, Mas olhares á vontade.
XIX Deixo-vos os comboios, Para vós os deixares andar, Porque è muito peso, Não os podeis atracar.
XX Deixo-vos essas grandes sapatarias, Que tem finos sapatos, Que tudo o que há em Lisboa, Hei-de vos deixar a vós fartos. XXI Deixo tudo o que à na terra, Ainda parte do céu, Deixo-vos essas chapelarias, Para comprares um chapéu. XXII Mas è se tiveres dinheiro, Para o chapéu comprar, Não è chegar à chapelaria, E logo o chapéu pegar.
XXIII Deixo-vos tudo à fartura, Não faço com vós fazias, Não me davas manga, Mas vós à fartura comias.
XXIV Isto è só para amigos, Isto não era de fazer, Deixar-vos uma fortuna, Sem vós a mim nada ser.
XXXIII Deixo-vos água á fartura, Para na sopa botar, Para não a dares salgada, Para a sopa temperar.
XXXIV Deixo-vos esses talhos, Para de lá carne trazer, Para na sopa botar E ao fim para vós comer.
XXXV Os ossos ficam para nós, Porque esses são muito duros, Mas deixo-vos-los no testamento. Que vos ficam bem seguros.
XXXVI È o que vos deixo com mais gosto, Deixo-vos-los bem seguros, Para pores de madoreiro, Até se porem maduros.
XXXVII As couves que vinham duras, Também vo-las posso deixar, Para vós as comeres, Para isso tendes vagar.
XXXVIII O banacau esse, Não se pode falar, Comias o pó todo, Só água querias dar. XXXIX Um bocado de mijeira de burro, Isto assim não está mau, Davas só a água, Comias o banacau.
XL Está tudo muito fraco, Mas eu não me admirava, Cozinheiros feitos à pressa, Era o que mais se encontrava.
| IX Para ser a nossa capital, Uma cidade muito rica, Deixo-vos o campo de aviação, Que é o campo de Benfica.
X Deixo-vos todos os jardins, Para neles recriares, Mas se tiveres dinheiro, Para vos poder sentares. XI Deixo-vos essas pequenas tascas, E esses grandes hotéis, E para limpares o rabo, Um bô rancho de papeis. XII Deixo-vos esses cinemas, E todos esses teatros, Mas se não tiveres dinheiro, Eu ponho-vos-los mais baratos. XIII Deixo-vos a avenida da liberdade, Para nela passeares, Deixo-vos bons cafés, Para se tiveres dinheiro comprares. XIV Também vos quero deixar, O rico terreiro do paço, Para ires para lá com a mala, E a toalha no braço. XV Que è para ganhares dinheiro, Para poderes passear, Que senão vale nada, O que vos estou a deixar.
XVI Deixo-vos todos os navios, Para vós olhares para eles, Que enquanto estais em Lisboa, É o que mais aqui vedes.
XXV Não tenho nenhuns parentes, Não tenho a quem deixar, Deixo-vos a vós, Por manga não me quereres dar.
XXVI Para não vos fazer roubo, Faço –vos então testamento, Para vós tudo herdares, E não passares tormento.
XXVII Também vos quero deixar, Os armazéns de fazenda, Deixo-vos o mais alto armazém , Até mais baixar a tenda.
XXVIII Para escolheres à vontade, Lá o a vós vos parecer, E as portas bem abertas, Para os fatos vos dentro ver.
XXIX Mas senão tiveres dinheiro, Só vos fica a olhar, Só se ninguém vos ver, E vós poderes roubar.
XXX Deixo-vos os grandes hotéis, Para comeres e beber, Dinheiro não tendes, Mas ficai-o a dever.
XXXI Eu de vós tudo confio, Eu de vós tudo fiei, Não faço como vós fazias, Nesse tempo que eu sei.
XXXII Agora deixo-vos ricos, Tendes bem que gastar, Não faço como vós fazias, Manga não me querias dar.
XLI Na terá eram borra-botas, Uns completos sapateiros, Para cozinhar para a tropa, Isto já são cozinheiros.
XLII Creio que já não tenho, Mais nada que vos deixar, Mas se quereis mais alguma coisa, Vinde para mim falar.
XLIII Deixo-vos papel selado, Um bocado de tinta bê, Na terá não tendes que comer, E para vós meter o é.
XLIV Não tendes que vos queixar, Deixo-vos a cidade em peso, Deixo-vos para o vosso c,, Este c,,,lho bem teso.
XLV Peço-vos agora desculpa, Também vos peço perdão, Agora como vou embora, Deixo-vos o salpicão.
XLVI O casqueiro que me tocava, Que eu deixava pôr duro, Mas ainda vo-lo deixo, Um bocado mal seguro.
XLVII E agora está findado, O meu rico testamento, Foi bhoje mesmo, Que esteve seu findamento.
XLVIII Não è por vos querer mal, Que vos fiz a escritura, Mas assim no testamento, Fica-vos muito mais segura.
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