I Quando vim para soldado, Olhem as cenas que fiz. Parece que adivinhava, Que ia ser um infeliz.
II Despedi-me da minha freguesia, Um despedimento à toa. Para onde eu fui para a tropa, Fui logo para Lisboa.
III A tristeza que eu tive, Quando chegou esse dia. Vim logo para longe, Para não tornar Haver a família.
IV Agora chegou o dia, Em que vou mobilizado. Minha mãe em Lisboa, Já deixei de ser soldado. V Estou para entrar para o barco, Os desgostos são só meus. Há tanto tempo que não vi, E não lhe posso dizer adeus.
VI Se ao abrir a carta ela fala-se, È que você podia ver. Adeus minha querida mãe, Que a não torno a ver.
VII Quinze dias nas águas do mar, Foi tudo quanto andei, Agora minha querida mãe, Já a cabo verde cheguei.
VIII Ao chegar a cavo verde, Terra estranha para mim, Desejei-me na minha freguesia, Que era mesmo um jardim.
| IX Não conheço aqui ninguém, Não tenho para quem me chegar, Não tenho aqui amigos, Estou muito a estranhar.
X Não me dou com o clima, Que é muito doentio, Não posso lograr saúde, Vou para comer tenho fastio.
XI E agora não sei quando, De cabo verde eu sairei, Quando a guerra acabe, Que eu para aí voltarei.
XII Mas isto tudo são sortes, Que deus tem para nos dar, Foi numa época ruin, Que eu vim para militar.
XIII No ano em que eu nasci, Não devia ter nascido, Ou com uma tempestade, Ter então desaparecido.
XIV Mas tinha que nascer alguém Sem haver criação não podia estar, E logo um deles fui eu, Para andar aqui a penar.
XV São terras de Portugal, Temos que as percorrer, Para um dia que haja guerra, Nós as poder defender.
XIV Nós somos de Portugal, Isto são terras portuguesas, Daí para aqui só muda, Os ares da natureza. José Costa.06-10-1942
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