I Chegou o infeliz dia, Disse adeus à minha terra. Adeus minha querida mãe, Vou hoje mesmo para a guerra.
II Não chore minha mãe não chore, Não vale a pena chorar. Peça antes a Deus, Para eu ir e voltar. III Você è minha Mãe, E eu sou seu filho amado. Mas você não manda em mim, Desde que fui para soldado. IV Desde que eu fui soldado, Fiquei da pátria a pertencer. Que agora como há guerra, Temos que a defender. V Logo que cheguei ao Quartel, Não esteve cá um momento. Parti logo para as fronteiras, Para o entrincheiramento. VI Cá ando no entrincheiramento, Cá ando numa trincheira. As cenas que eu faço, È mesmo de uma toupeira. VII Sabe Deus o que eu passo, Andar aos trambolhões. Trago os ouvidos a zoar, De ouvir troar os canhões. VIII Ando sempre a insinuar, Com o trondar da artilharia. Andei sempre muito triste, Desde que fez a despedida. XVII Aqui agora já sei, Que è raro escapar. Que vejo que todos os meios, São só para nos matar. XVIII As granadas nesse ar, È como se fosse a chorar. Não podemos escapar, Não temos onde nos meter. XVIX O melhor será morrer, E não ter medo da morte. Isto tudo è por Deus, Isto è a nossa sorte. XX Os soldados a cair, È uma barbaridade. Uns mortos outros aleijados, Tudo mete piedade. XXI O comer è muito pouco, Porque isto è muito povo. E à outra isto è tudo, Sempre no meio do fogo. XXII Não estamos em momento, Que não se ouça tiroteio. Está sempre a cair, Granadas no nosso meio. XXIII Quando vem aviação, Já tudo está a tremer. As granadas a cair, È como se fosse a chover. XXIV Quando ouvimos os canhões, O seu fogo a fazer. Já tudo foge para trás, Porque ninguém quer morrer. XXXIII A direcção não lha mando, Que não temos lugar certo. Por acaso nestas alturas, Estamos aqui num deserto. XXXIV Você para cá não escreva, Quando poder escreverei. Para saber que seu filho, Ainda de você me lembrei. XXXV O lugar em que nós estamos, È no meio da montanha. Andamos em secções, Como se fosse uma aranha. XXXVI Mas com isto minha mãe, Não se ponha a chorar. Se por acaso morrer, È Deus que me quer levar. | IX Dou-lhe o último adeus, Que a não torno a ver. Para defender minha terra, Lutarei até morrer.
X Nela tenho minha mãe, Por seu filho a chorar. Seu filho anda na guerra, Não o torna abraçar. XI Na verdade vou lutar, Para defender a nação. Mas mais quero defender, Mãezinha do coração. XII Não me posso esquecer, Levo-a atravessada. E toda a gente amiga, Que deixo abandonada. XIII As cenas que nós fazemos, Andar de rasto no chão. Ao que um homem chegou, Pra defender a nação. XIV Andamos a combater, E não se pode fugir. E vejo os meus colegas, À minha beira cair. XV Mas para trás é que não, Prá frente è que se avança, Nem que venha direito a ti, Mesmo até uma lança. XVI E depois a aviação, Sempre no ar a voar. Descarregando material, A tratar de nos matar. XXV Uns enterrados pelas granadas, Outros com graves ferimentos. E o que estamos a ver, Cá nos entrincheiramentos. XXVI Nas guerras não admira, Tudo morre de desastre. Às vezes vem uma granada, Que aquilo è um desbaste. XXVII Uns vão para o hospital, Coitados a sofrer. Que em vez de ficar aleijados, Seria melhor morrer. XXVIII O frio que cá passamos, Não se pode suportar. E a fome que trazemos, Não podemos aguentar. XXIX Quando o fogo pára um bocado, Para fazer novo avanço. È quando nós temos, Um bocado de descanso. XXX Não è por estar parados, Que aquilo è sempre andar. Mas naquele momento, Não se ouve fogo a troar. XXXI Por isso minha querida mãe, È o que aqui se está a passar. È este grande tormento, Que se está atravessar. XXXII Escrevi-lhe esta carta, Para você espalhar. Mas não tenho mais papel, Nem dinheiro pró comprar. XXXVII Minha mãe quando eu nasci, Melhor tivesse morrido. Porque você não calcula, O que eu tenho sofrido. XXXVIII Criou-me com tantos carinhos, Mas isso não valeu nada. Se me deixa-se morrer, Tinha a morte perdoada. XXXIX Com respeito a esta vida, Não tenho mais que contar. Agora querida mãe, Com isto vou terminar. XL Mando-lhe um saudoso beijo, E um abraço apertado. Deste seu filho que se encontra, De você abandonado. José Costa. Ano de 1942
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